Close
Arquitetura x Globalização

Arquitetura x Globalização

Arquitetura é muito mais do que lapiseira e papel! Pra você que concorda, nesta série trataremos de todos os aspectos reflexivos que envolvem esse imensurável mundo arquitetônico no qual vivemos.

“O post de hoje foi produzido com a colaboração de Ana Carolina Lot, Élida Pereira, Gregory Patrick, Patrícia Barbosa e Tayane Munhoz, como parte de um trabalho para a disciplina de Teoria da Arquitetura VI da turma 409 da Arquitetura do Mackenzie. Sob orientação dos professores Ricardo Medrano e Cláudia Stinco. Gostei muito do resultado então ofereço para meus amigos, espero que gostem.”

Livrarias modelo x Ebooks: Livraria da Vila em foco.

Cada dia mais percebe-se como o mundo virtual toma conta de nossas vidas. Pessoas conectadas ao mundo, de dentro de seus bolsos, com seus smartphones e tablets, e cada vez menos se partilha de experiências físicas, da troca de informações pessoalmente.

Essa facilidade na transferência de dados pelo “mundo web” torna, cada dia mais, o “mundo em papel” questionável, ainda mais agora que a sustentabilidade está tão em foco, tornando o uso do papel um assunto cada vez mais melindroso.

Fato é que andam trocando as conversas pelos “torpedos”, o “falar” pelo “teclar”, o “ler” pelo “folhear”, e a arquitetura também é influenciada por essa transição.

Quantos espaços, pensados para atender o ser humano em seus momentos de convívio, vem se tornando meros espaços de passagem, meros vazios pela cidade por onde as pessoas transitam, presas em seus mundos virtuais, e nem veem o que está em volta?

Quantas praças se tornam cada vez mais lugares a evitar e não mais locais de encontro?

Para que se possa visualizar com mais clareza observe o exemplo dos livros.

Para quem gosta de ler, eles nunca sairão de moda, mas hoje, é difícil quem nunca tenha “baixado” um livro pela internet, nem que fosse para começar a lê-lo e comprá-lo depois, mas não é esse o ponto, e sim que apesar dessa nova tecnologia nunca houve tantos livros na lista de “Bestsellers” quanto nos últimos 10 anos, e cada vez se vendem mais livros.

Por mais que a globalização leve as pessoas cada vez mais para dentro de suas casas e longe da arquitetura, o atrativo de um determinado projeto pode ser forte o suficiente para reverter os polos, para continuar, sim, trazendo as pessoas para as livrarias, buscando esse convívio, esse “ver gente”, aliás, “ver gente e enxergar gente” que se perde com o decorrer dos anos. Talvez essa mesma globalização que leva as pessoas para longe do convívio público, as traga, como que numa busca desesperada por esse elo perdido, de volta a esses espaços onde se encontram com o conhecido, com o familiar.

A Livraria da Vila, do arquiteto Isay Weinfeld, é um ótimo exemplo desse refúgio; localizada na Alameda Lorena, no bairro nobre do Jardins, em São Paulo é ponto de encontro diário de diversos amantes da leitura, sejam aqueles que preferem livros, sejam os que buscam revistas, sejam solteiros ou casados, adultos ou crianças, a livraria proporciona um espaço tal que leva às pessoas a visitarem-no diariamente, em busca de novidades, de informações ou até mesmo de outras pessoas com quem conversar.

Livraria da Vila por Ana Carolina Lot

Esse espaço possui diversas peculiaridades em detrimento a outras livrarias mais convencionais, tais quais, sua fachada, com um grande recuo, e fechamento através de prateleiras que se iluminam a noite e que chamam muito a atenção de quem passa, sua iluminação interna, suave, e focal, que permite um espaço não agressivo aos olhos mesmo na leitura por tempo prolongado, os bancos integrados às paredes, possibilitando diversos espaços propícios à leitura no decorrer das prateleiras, os “puffs” na área infantil, que possibilitam maior mobilidade e conforto para os “pequenos”, os vãos entre os pavimentos que trazem um diálogo entre as diferentes partes da livraria, e claro, o ponto mais comentado, a distribuição do acervo, sem estoque, por todo o edifício, de forma, aparentemente desordenada, criando um espaço pequeno, mas não sufocante, sim aconchegante, acolhedor.

Todos esses pontos e tantos outros mais tornam a Livraria da Vila da Alameda Lorena um espaço ímpar, um espaço com um atrativo muito subjetivo, que te leva para lá sem muito saber o “por que”. Agora reflita. Pode o conforto de comprar um livro virtual, sem sair de casa, suplantar a experiência de vivenciar um espaço como esse?

Ao pensar nas livrarias modelo, projetadas para te atrair para elas, chega-se a conclusão que não, que esses lugares são muito mais do que livrarias, muito mais do que um lugar diferenciado, são, assim como toda arquitetura que prevê esse resultado, “instalações”, lugares que te fazem sentir, independente da sua intenção, lugares que te causam sensações tais que fica quase impossível esquecê-los completamente e aderir de forma integral ao mundo “web”.

O ser humano precisa dessas sensações, precisa dessa experiência social que essas livrarias podem proporcionar, desse local seguro, confortável, também visualmente, em que ele possa ir, buscar esse livro, senti-lo, tocá-lo, essa experiência que só uma livraria pode proporcionar. Mas em contrapartida, de que vale uma livraria se ela é pura e simplesmente igual às outras?

É nisso que livrarias modelo, como a Livraria da Vila, se difere das outras, é esse prazer que causam ao espectador que faz com que as livrarias e os livros em si, nunca desapareçam definitivamente, que nunca percam seu valor, pois, o ser humano, apesar de apreciar muito o mundo virtual e sua facilidades e comodidades, nunca será capaz de viver em isolamento, sempre precisará do diálogo, do convívio, por questões de saúde, física e mental.

E apesar de essas livrarias “especiais” onerarem os valores finais dos livros, e tornarem-nos menos acessíveis há algumas pessoas, haverá sempre locais como a Livraria da Vila, onde há explícito no lugar, como se houvesse uma placa, o “slogam”: “Entre e sinta-se em casa.”.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Close