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O trânsito insuportável das metrópoles

O trânsito insuportável das metrópoles

Arquitetura é muito mais do que lapiseira e papel! Pra você que concorda, nesta série trataremos de todos os aspectos reflexivos que envolvem esse imensurável mundo arquitetônico no qual vivemos.

Como é de conhecimento geral, o trânsito vem crescendo de forma assustadoramente veloz nos últimos anos. Em 2011, mais 2 milhões de veículos engrossaram esse acúmulo, em todo o Brasil.

Mas como solucionar um problema que parece não ter mais solução?

Podemos observar em cidades pelo mundo que há sim soluções, mas dentro do mundo da arquitetura já aprendemos que a solução que cabe lá, nem sempre cabe aqui, que um edifício não pode simplesmente ser copiado em diversos lugares do globo e funcionar plenamente.

Vemos Londres, seu centro histórico, tão parecido, na teoria, com São Paulo, e lá a solução adotada foi a cobrança de pedágios urbanos para a circulação nesse perímetro. OK. Deu certo. A diminuição do número de veículos foi tamanha que quase não existe mais trânsito no centro histórico de Londres, mas por que isso não funcionaria nas metrópoles brasileiras?

Primeiro, num plano geral.

Todo sabemos que impostos no Brasil trazem a baila um tema melindroso, causam “comoção popular”, causam estresse, e todo o tipo de manifestação, e com toda razão, claro, pagamos de mais e temos de menos, cada vez isso se torna mais visível, gritante, então qualquer medida como essa sempre tem que ser muito bem pensada.

No Rio de Janeiro. Não há bem uma porção central onde “restringir”. O congestionamento se espalha pela orla e por suas paralelas, então colocaríamos pedágios na praia? Não faz sentido.

Em Belo Horizonte e São Paulo vejo o mesmo problema. O centro velho londrino é diversas vezes menor que o centro dessas cidades, ou seja, há a possibilidade de ir andando por ela para onde se quer chegar, e há também o sistema de bicicletas, tão disseminado na Europa, o que possibilita segurançacomodidade (tirando, claro, que lá eles não têm o Sol escaldante e a chuva torrencial que temos aqui, tudo no mesmo dia e minuto).

Ou seja, o que mais então?

Na minha opinião os pedágios não funcionariam no Brasil. Seriam mais uma forma de “afanar” o dinheiro da população, pois, seria quase impossível privatizar as vias centrais, como fazem em rodovias e “venhamos e convenhamos” que a administração pública brasileira não tem nem a pontualidade britânica nem a eficiência japonesa, então sabemos exatamente como ia acabar, ou melhor, como não ia, nunca, acabar.

Creio que para o modo de vida brasileiro o mais eficiente seria o aumento da restrição veicular, conhecido como “rodízio”. Em primeiro plano creio que se deveria estudar o aumento do intervalo desse evento, já que os horários que o antecedem estão cada vez mais congestionados, congestionamento esse gerado pelos motoristas dos veículos em rodízio naquele determinado dia, fugindo das multas, andando antes e depois, do horário estipulado, fazendo com que o transito não diminua, apenas “se espalhe”.

Que tal o rodízio se estender pelo dia inteiro, havendo apenas um pequeno intervalo durante a noite onde os motoristas poderiam usar seus carros?

Aqueles aí do outro lado que usam o carro todos os dias já estão me crucificando, tenho certeza, afinal o transporte público brasileiro, de um modo geral não atende, de forma humana, nem metade da população que faz uso dele diariamente.

Trânsito na cidade de São Paulo
Trânsito na cidade de São Paulo

Chegamos há mais um daqueles derradeiros momentos em que eu pergunto: “E aí, galera? O que fazemos?”

Sinceramente estou, um pouco, em cima do muro com essa questão.

O mais sensato seria aumentar o intervalo da restrição, incentivando as pessoas não a esperar pra sair do trabalho e sair de casa mais cedo como acontece hoje, e sim a deixarem os carros em casa e irem de ônibus/metrô. Mas como usuária de anos dos dois (e como não desejo mal a ninguém), não recomendo o transporte público.

Ele é ruim, falho, não é confiável. Só semana passada cheguei atrasada 2 dias, por um ônibus que andou um ponto e quebrou e uma “pane” sem explicações em duas linhas diferentes do metro que me manteve parada na mesma estação durante 35 minutos ouvindo o funcionário dizer: “Estamos circulando com velocidade reduzida e maior tempo de parada”, velocidade reduzida…a zero. Maior tempo de parada…de 30 segundo pra 30 minutos. Não tiro a razão dele.

Enfim, galera, nós podemos nos tornar facilmente arquitetos que resolvem problemas para um núcleo familiar, para uma rede de hotéis, para um ginásio esportivo, pois, em cada um desses lugares há uma coisa que chamamos de “uso específico”, ou seja, as pessoas vão a esses lugares com um intuito, com uma finalidade, e não importa se é privado ou público, o “uso específico” simplifica a quantidade de problemas que o local pode gerar.

Já na cidade, como um todo, muito mais no trânsito, cada um está mais preocupado com o “seu umbigo” e não com o convívio, pois, o estresse, o cansaço, e o fato de aquele ser um lugar de passagem, faz com que as pessoas tenham uma atitude muito imprevisível, que tenham formas de lidas com determinadas situações que podem facilmente sair do controle.

A cidade é pública de um jeito que nada mais é.

Nada público é tão público e com potencial democrático como ela, mas a forma como as pessoas agem devido a esse excesso de liberdade torna esse espaço público cada vez mais incontrolável e qualquer medida para remediar uma situação que é ruim para todos só gera, sempre, mais e mais discussão e menos atitude, como se as pessoas só fossem se dar conta do problema quando a cidade parar, literalmente, quando o transito atingir um nível em que você vai sair de casa e não vai mais conseguir voltar. Não estamos assim tão longe disso, com a curva de crescimento do número de automóveis cada vez mais acentuada, já já estaremos nessa situação, e quando esse dia chegar, aí sim, colocaremos as mãos na cabeça e diremos “E agora, gente? O que a gente faz?”

Digo isso, sempre da minha maneira radical, para que os futuros arquitetos NUNCA desmereçam o “sobrenome”: “E Urbanista”, que carregaremos também, pois, por mais que a matéria fuja completamente do que você imaginou para a arquitetura na sua vida, os urbanistas (apesar de terem criado muitos problemas) nos salvarão quando o dia do caos chegar.

Quem sabe você não estará entre eles?

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