Close
O ensino tendencioso das grandes escolas de Arquitetura brasileiras

O ensino tendencioso das grandes escolas de Arquitetura brasileiras

Arquitetura é muito mais do que lapiseira e papel! Pra você que concorda, nesta série trataremos de todos os aspectos reflexivos que envolvem esse imensurável mundo arquitetônico no qual vivemos.

Mais uma semana e estamos aqui, cada vez mais atarefados, mais sem tempo pra nada, mas só vou faltar com você em casos emergenciais de “a entrega do projeto é amanhã e eu não tenho quase nada”, ok?!

O tema de hoje é difícil, não só porque é complicado tentar categorizar as escolas de arquitetura sem parecer que estamos julgando-as, mas principalmente porque é difícil pra uma pessoa tendenciosa falar de como as escolas são tendenciosas sem ser completamente tendenciosa. Risos…

Vamos dar aquela localizada!

Como “ensino tendencioso” vemos aquele que prepara o profissional não para ser um bom arquiteto, mas para atender o mercado existente, também é aquele ensino que forma profissionais padronizados, ou seja, “com a cara” da escola na qual se formaram, em síntese, é aquele ensino que nos guia e não ensina a abrir a mente, é aquele ensino que nos prende, nos aprisiona em regras, por muitas vezes mascaradas, para que se mantenha o padrão da instituição, e seu nome no mercado, ou também por falta de um corpo docente com força tal para mudar o padrão “que já vem dando certo” há tanto tempo.

Mais uma vez me perdoem por voltar minha discussão para São Paulo, mas, mais uma vez, por “conhecimento” e “vivência” posso tomar as grandes escolas daqui como exemplo sem pecar tanto nas definições.

Em São Paulo temos diversas escolas de arquitetura com metodologias diferenciadas, podemos citar entre as que mais se distinguem entre si as 6 principais, são elas: a Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAU – USP), a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (FAU – MACK), a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Belas Artes, o Núcleo de Arquitetura da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), e a Escola da Cidade.

Cada uma delas preza em seus alunos qualidades distintas. Praticamente todas são extremamente elitizadas, não que seja impossível uma pessoa “comum” (desculpem a expressão) estudar lá, aqui vos fala a prova viva (ou quase) disso. Sou bolsista integral no Mackenzie e só eu sei as barbaridades que ouço por lá.

Algumas dessas escolas levam a “fama” de formar arquitetos que chamamos “carinhosamente” de “Casa Cor”, outros de formar os gênios prodígio da arquitetura brasileira, nossos futuros Sanaa e Hadid; outras têm a fama de formar os Le Corbusiers do presente, outras de formar os novos ganhadores de todos os concursos públicos existentes no país, algumas levam a fama de formar os arquitetos “hippies”, votados todos para a arte, para a parte plástica da coisa, algumas formam os “mente abertas”, aqueles que são bons no “manualmente”, que desenham, pintam, esculpem, bordam, costuram, mas ainda tem muito o que aprender na arquitetura.

Não preciso dar nomes aos “pilares” para sabermos quem é quem, principalmente se você é de alguma dessas escolas, mas fato é que cada uma delas descobriu sua “fórmula mágica”, aquela metodologia fantástica que faz seu nome pulular em diversas publicações do mundo mensalmente, então pra que mudar?!

Tempos Modernos Charles Chaplin 1936
Tempos Modernos Charles Chaplin 1936

Como por exemplo, o Mackenzie, que apesar de uma quantidade razoável de bolsistas é elitizado sim, fechado sim, cobra de você partidos específicos, e apesar de vez ou outra aparecer um abençoado revolucionário em na matéria “Projeto”, na sua maioria todos tem a mesma faixa etária, todos são formados lá, ou na FAU – USP, todos prezam as mesmas qualidades na arquitetura e todos sutilmente (ou não) te amarram, te algemam, te prendem com argumentos tão bem estruturados que você nem sabe por onde começar a se rebelar.

Não é só porque que eu tenho apreço pelo modernismo que eu concordo com a forma como a escola “leva” seu curso, prezando o que lhe convém, catalisando nossas qualidades e nos moldando para que sejamos o que o mercado espera do nome que carregamos, e não pense você que só porque não é aluno de uma dessas instituições que citei que isso não acontece com você, pois, acontece sim. Conheço pessoas de outras escolas mais recentes (excluindo a Escola da Cidade que tem 11 anos) como a Faculdade de Arquitetura da Universidade Cruzeiro do Sul, onde por sinal nosso colunista chefe, André, cursa arquitetura, onde existe sim essa manipulação, esse “guiarnos” pelo caminho que eles desejam, não por outro motivo  que cada escola tem programas tão distintos, que cada arquiteto tem formações tão distintas, alguém que se formou na mesma escola que eu há 5 anos, já não recebeu o mesmo ensino que recebo hoje, mas ainda sim, possui o mesmo molde modernista, mascarados de pós moderno que todo Mackenzista teria caso não tivesse força de vontade de contrariar seus professores.

Claro que não podemos apenas criticar. Afinal a “fórmula mágica” surte efeitos estrondosos, arquitetos dessas escolas pelo mundo a fora, em escritórios famosíssimos, fazendo grandes coisas, mas será que vale a pena “sacrificar” parte a da vontade própria de cada arquiteto em formação apenas para continuar suprindo o mercado com seus bons arquitetos e mantendo o renome da instituição?

Com certeza alguém poderá pensar “Eu não sou suprimido pela instituição!!!”, até sei quem eu ouviria dizer isso, mas querendo ou não, se você é ensinado naqueles parâmetros, naqueles moldes, por mais que seu pensamento fuja dele você possui muros, pontos cegos deixados propositalmente para que ou você seja mais um dos grandes dentro daqueles moldes, ou para que você seja àquele que se destacará dentre todos.

Você, como aluno de uma determinada instituição possui certos “parâmetros base”, que rondam todos, pode fugir deles, mas talvez nunca se desprenderá deles completamente, e nem nos interessa isso também.

Mas e a parte “a parte”, aquelas escola “sem a fórmula do sucesso”?! Não nos fazem tão mal quanto? Não formam meros projetistas, meros CADistas, por vezes sem noção alguma de partido projetual, sem nenhuma bagagem arquitetônica, sem nenhum senso critico? Posso estar sendo, claro, muito tendenciosa e “exagerada”, mas elevando à extremos podemos observar melhor as falhas nas escolas de arquitetura brasileiras, as falhas com as quais cada um de nós terá de lutar quando chegar nos “finalmentes”, àquelas falhas que teremos que corrigir sozinhos (ou que alguns conviverão bem com elas) e perceber o quanto “não” aprendemos em 5 anos de arquitetura.

Quem dera todos pudessem ter a vivencia que a Escola da Cidade exige, mas ainda sim não acho que bom arquiteto é aquele que conhece o mundo fisicamente, mas sim aquele que conhece muito bem a si mesmo, para saber quando seus princípios o estão traindo nas suas concepções, que conhece aquilo que faz, para que evite erros graves de concepção e que principalmente conhece o ser humano como um todo, pois, afinal, não é só para a cidade que trabalhamos, a arquitetura não é nada sem aqueles para quem ela foi construída.

Mais uma vez convoco os leitores do Arktetonix para que nos deem sua opinião:

O ensino na sua escola é tendencioso? Como você acha que isso influi na sua formação? E como influi na sua concepção de “o que é arquitetura e como deve-se trabalhar ela”?

Aguardo ansiosa muitas opiniões a favor e principalmente contra meu ponto de vista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Close